sol2070@velhaestante.com.br (e)k Cormac McCarthy(r)en Onde os Velhos Não Têm Vez liburuaren kritika egin du
Suspense policial sem igual
5 izar
( sol2070.in/2026/04/onde-os-velhos-nao-tem-vez-cormac-mccarthy/ )
Onde os Velhos Não Têm Vez (No Country for Old Men, 2005, 256 pgs) foi meu primeiro romance do lendário Cormac McCarthy que se passa nos tempos de hoje, mais ou menos. Estava ansioso por isso.
O estadunidense é mais famoso pelos "faroestes" (injustiça ter que usar essa palavra) como Meridiano de Sangue e a Trilogia da Fronteira, além do apocalíptico A Estrada. Já Onde os Velhos é um inquietante e sombrio suspense policial.
Leio muitos romances de "gênero", mas concordo que é limitador aplicar esse rótulo ao escritor. Ele é considerado um dos maiores romancistas norte-americanos de todos os tempos e também aplaudo entusiasmado.
Para quem não viu o já clássico filme (comento no final), a sinopse não tem grande coisa: Moss, um humilde veterano do Vietnã encontra uma mala de dinheiro de traficantes. Todo mundo vêm atrás, incluindo o velho xerife …
( sol2070.in/2026/04/onde-os-velhos-nao-tem-vez-cormac-mccarthy/ )
Onde os Velhos Não Têm Vez (No Country for Old Men, 2005, 256 pgs) foi meu primeiro romance do lendário Cormac McCarthy que se passa nos tempos de hoje, mais ou menos. Estava ansioso por isso.
O estadunidense é mais famoso pelos "faroestes" (injustiça ter que usar essa palavra) como Meridiano de Sangue e a Trilogia da Fronteira, além do apocalíptico A Estrada. Já Onde os Velhos é um inquietante e sombrio suspense policial.
Leio muitos romances de "gênero", mas concordo que é limitador aplicar esse rótulo ao escritor. Ele é considerado um dos maiores romancistas norte-americanos de todos os tempos e também aplaudo entusiasmado.
Para quem não viu o já clássico filme (comento no final), a sinopse não tem grande coisa: Moss, um humilde veterano do Vietnã encontra uma mala de dinheiro de traficantes. Todo mundo vêm atrás, incluindo o velho xerife Bell e Chigurh, um assassino incomum.
O que absorve e magnetiza não é esse gasto enredo. Além do estilo seco e duro da prosa, realçado com diálogos memoráveis, o vilão Chigurh vem com uma aura de escuridão monumental, como uma força irrefreável que chega arrombando a porta para assolar o mundo moderno. Seu rastro de extermínio serial é inédito para os policiais do caso, especialmente o nostálgico xerife Bell.
Apesar de ser praticamente um romance de vilão, o xerife no fundo é o protagonista maior, mesmo que quase não participe da ação, já que a prosa é intercalada por suas reflexões interiores. O título é sobre ele, e tudo o que representa. Cuidadoso, respeitoso e crente (mais nos valores sobre certo e errado do que na religião em si), começa a considerar seriamente o que de fato seria o diabo. McCarthy não é um autor religioso, mas o Mal é um de seus grandes temas.
Como o assombroso Juiz Holden, de Meridiano de Sangue, Chigurh não é um criminoso qualquer. Ambos são metódicos, astutos, mestres no que fazem, estratégicos, com visão de longo prazo e, principalmente, convicção total nos princípios invertidos a que chegaram, uma visão de mundo perversa e amoral, mas coerente e lógica, sintoma da degeneração geral, talvez até cósmica. Na verdade, não é que eles cultivem em si a abominação, são encarnações dela.
Uma diferença é que Chigurh domina táticas mortíferas mais modernas e destrutivas, em sintonia com as atuais matanças generalizadas praticadas por cartéis, polícias, máfias e exércitos.
O romance pode ser lido como mero suspense policial, de sanguinolência explosiva. Mas o que o eleva é essa camada de algo maior assolando o mundo, prenunciando uma degeneração apocalíptica.
Contudo, não é tão forte como seus outros livros que exploram esses temas. A camada existencial não está por toda parte. Não há suas tradicionais longas frases cadenciadas de irresistível poder evocativo. Há menos paisagem, descrição mítica e muito mais ação.
As reflexões do xerife por vezes soam como os lamentos de um velho conservador. Reclama mais de uma vez de jovens com cabelo colorido e brinco no nariz. Mas ele oculta um tormento interno. Sua história continua bem depois que a perseguição principal já concluiu, e no final dá sentido e contexto a seus monólogos pessimistas por todo o livro.
Isso é algo que ficou de fora do filme de 2007 (cuja tradução do título trocou "velhos" por "fracos"), também assombroso. Os irmãos Cohen dirigiram uma adaptação exemplar, seguindo o ritmo seco e duro, sem nenhuma música para direcionar emoções, com diálogos e cenas praticamente idênticas ao livro, e o ator Javier Bardem, como o assassino que é uma força da natureza, talvez em seu papel mais inesquecível.
Entretanto, a profundidade do xerife e sua história não entraram, assim como alguns traços marcantes de Moss, como sua ética também anormalmente coerente, do outro lado. Provavelmente, nem teria como, sob o risco de alongar demais e pulverizar o foco — mas na literatura é plenamente possível aprofundar assim.